Resenha: Quarto de Despejo
- Bruna Beltrão
- 25 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
Publicado em 1960, Quarto de Despejo é uma obra brasileira escrita pela autora Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, em São Paulo.
O livro reúne uma série de diários da autora, nos quais são narrados os principais acontecimentos de seu dia a dia. A partir desses relatos, o leitor pode obter um olhar preciso e fiel da realidade na favela.
Carolina fora descoberta pelo repórter Audálio Dantas, que visitava a favela do Canindé com o intuito de fazer uma reportagem sobre o local. Ao descobrir que uma das moradoras possuía tamanho acervo de relatos, o jornalista percebeu que o conhecimento mais exato da favela estava ali: nos diários de uma favelada.
Após a publicação, Quarto de Despejo foi um sucesso de vendas no Brasil e depois chegou a ser traduzido para mais de 13 idiomas, obtendo também grande destaque ao redor do mundo.
Nos anos 1950, época em que escreveu os diários, Carolina Maria de Jesus era catadora de papel e mãe solteira de três filhos. Imersa nas dificuldades da pobreza extrema, ela vê a escrita como um refúgio para seus problemas, tendo como grande sonho se tornar escritora.
Carolina, então, passa a relatar seu cotidiano, expondo suas aflições diárias, seu trabalho exaustivo e a expectativa de não saber se terá comida para oferecer aos filhos.
A ideia que a narrativa nos passa é de que a autora luta diariamente para fugir da fome, das doenças e da pobreza. A cada dia, Carolina têm um novo desafio, muitas vezes, pior do que o do dia anterior.
Trata-se de uma leitura difícil, visto que desde o início o leitor é sensibilizado pela árdua realidade da escritora. No entanto, é uma obra que suscita vários debates acerca da pobreza e suas mazelas.
A edição publicada de Quarto de Despejo buscou conservar ao máximo a fidelidade dos escritos da autora, nos quais pode-se encontrar erros de sintaxe e ortografia. Esses erros faziam parte da escrita original de Carolina, que havia estudado somente até o segundo ano da escola primária.
Ainda assim, a escrita da autora é repleta de personalidade e força. É acompanhada de uma narrativa que consegue transportar o leitor para a favela de Canindé e sensibilizá-lo com a realidade de Carolina e daqueles que a cercam.
A origem do nome "Quarto de Despejo" está em uma comparação que Carolina faz ao longo da obra.
Ao visitar a cidade, ela percebia que haviam muitos lugares bonitos, ao que ela comparava à sala de visitas de uma bela casa. Contudo, ao lembrar-se da amargura da própria realidade, comparava a favela a um "quarto de despejo", no qual todo lixo e inutilidade seriam depositados. Carolina sentia-se assim: abandonada e marginalizada pela sociedade; imersa em uma miséria da qual ela sentia que nunca iria escapar.
"Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo."
A forma como a autora se sente é impactante e, infelizmente, real. Os detalhes em sua narrativa atravessam as mazelas que a miséria carrega, como a fome, a violência, a falta de saneamento e as doenças. Mesmo em meio a tantas dificuldades, Carolina se apegara aos livros, a partir dos quais pôde ter forças para escrever seus relatos diários e acreditar que um dia poderia mudar de vida.
De fato, isso ocorreu. Após o sucesso de vendas de seus livros, a autora pôde sair da favela e comprar uma casa para viver com seus filhos na cidade. Faleceu aos 63 anos, em seu quarto, na zona Sul de São Paulo, em virtude de uma insuficiência respiratória causada pela asma.
Quarto de Despejo é uma leitura pertinente e tocante, a qual recomendo a todos que desejam ler uma obra brasileira sobre a realidade vivenciada em meio à miséria. Carolina Maria de Jesus é uma das primeiras autoras negras publicadas no Brasil, cujas obras possuem alcance atemporal. Afinal, os abismos sociais, infelizmente, nunca deixaram de existir.
"Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem."
- Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus.
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Até breve :)
Bruna Pastana Beltrão.





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Excelente, Bruna! Esse livro é extremamente necessário para que cada um possa reconhecer seus privilégios. E nada tão avassalador e forte como as palavras de Carolina Maria de Jesus para fazerem isso.
Após terminar esse livro, é triste pensar que não se trata de uma ficção, mas sim de um pedido de socorro.
Infelizmente, suas obras posteriores não tiveram muito alcance e logo depois ela voltou a ser catadora até sua morte :(
Perfeito, Bruna! Escrita cativante, a sua. "O quarto de despejo" acaba de entrar na minha lista de leitura. Obrigada por compartilhar sua visão!